• Edu Peres

CHEMSEX: quais os cuidados tomar quando as drogas entram o universo sexual



Para quem não é familiarizado com o termo, chemsex ('chemical sex') é o uso de drogas recreativas nas práticas sexuais. É uma atividade já famosa fora do país e tem se popularizado no Brasil, principalmente com o crescente aumento de sex parties (como Dando*, Popporn, The Week), saunas, bares de cruising e darkrooms pelas grandes cidades do país. Embora normalizada na comunidade gay, que inclusive já possui um adjetivo para as pessoas que gostam do uso dessas substâncias - as "colocadas" - essa prática requer orientações em relação a cuidados com saúde por diversos motivos. Primeiramente, o o uso de drogas inevitavelmente altera o julgamento crítico, e como consequência, pode aumentar a exposição de risco a infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). Durante a transa acidentes podem ocorrer, como cortes com estímulo com objetos e/ou piercings, além de fissuras durante a penetração, em especial na ausência do uso adequadro de métodos preventivos, como a camisinha e o lubrificante. A transa sob efeito de entorpecentes reduz a capacidade de discernimento para o uso desses métodos, e por isso a prevenção no ato sexual fica a desejar. E mesmo que você seja usuário de TARV regularmente, ou esteja fazendo sua prevenção com PrEP, o uso de drogas recreativas coloca em risco a absorção desses medicamentos. Determinadas drogas podem atrapalhar a absorção de medicamentos antirretrovirais e demais medicações de uso contínuo, o que levaria a uma diminuição da eficácia dessas medicações, e por consequência, um aumento do risco de exposição a ISTs. Além disso, chemsex parties podem durar horas ou dias, e doses de medicações de uso contínuo (como o TARV e a PrEP) podem ser esquecidas, abrindo uma janela pra redução do efeito do tratamento e aumentando o risco. Também há de ser levado em consideração as interações dessas drogas, que em alguns casos podem ser fatais. A tabela abaixo exemplifica brevemente como essas drogas interagem, desde o risco baixo até o mais elevado, podendo resultar em morte.



Um exemplo de interação muito arriscada de duas drogas bastante populares é a que existe entre o Viagra e o Poppers. A pílula azul, utilizada para o tratamento de disfunção erétil, ganhou fama entre homens homossexuais por deixar o pênis "meia-bomba", aumentando o volume na sunga nas praias e pras fotos nas redes sociais. Já o Poppers é utilizado para relaxamento esfincteriano durante o sexo, facilitando assim a penetração anal. Uma interação que pode parecer inofensiva é, na verdade, um prato cheio para uma parada cardíaca. Isso porquê Poppers é um nitrato, e quando em interação com inibidores da fosfodiesterase-5 (Viagra, Cialis, etc), podem causar uma vasodilatação maciça, levando a queda da pressão abrupta, reduzindo a circulação de sangue no coração a ponto de causar Morte Súbita. E não só a interação, como overdoses podem ser um grande risco. Drogas como cocaína, GHB, Ketamina, Ecstasy, MDMA, Poppers, LSD, podem facilmente levar a quadros de toxicidade quando consumidas em pequenas quantidades acima da tolerância, e muitas vezes seus resultados podem ser fatais. Numa escala menor, o uso recorrente de drogas nas práticas sexuais pode desencadear disfunções sexuais. A dependência da droga pode resultar em Disfunções Erétil, de Excitação, Anorgasmia, Ejaculação Retardada, entre outras, quando na ausência de drogas para estimulação sexual. Vale ressaltar que, em período de isolamento, temos que redobrar os cuidados com possíveis crises de abstinência devido ao uso frequente e a dependência dessas drogas, seja para o sexo ou de forma cotidiana. Iniciar esse debate é, acima de tudo, uma forma de gerar conscientização em relação a redução de danos. Mais do que proibir, cabe a nós profissionais de saúde fornecer informação sobre os riscos e abrir um canal de diálogo para criar um espaço seguro no qual nossos pacientes possam compartilhar suas vivências sexuais. Por isso, a orientação em relação ao chemsex (para quem pratica ou pretende praticar) é:


  • Não misturar drogas;

  • Evitar doses além do planejado/tolerado;

  • Não faltar com doses de medicamentos de uso contínuo devido ao uso das drogas;

  • De preferência, tomar medicamentos de uso contínuo em horários distantes do uso das drogas;

  • Fazer uso de preservativos e lubrificantes nas relações sexuais;

  • Se hidratar durante a prática sexual;


E o mais importante: buscar auxílio médico se o uso de drogas passar de recreação para algo angustiante.

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